“Perguntou o Senhor Deus à mulher: Que é isto que fizeste?
Respondeu a mulher: A Serpente enganou-me, e eu comi.”
E ao morder a maça sinto a pele fria do Rei Serpente,
O ciclo me fecha a boca,
E é nesse abismo que encontro o amor ao destino.
A verdade não tem consolo: é dor e retorno.
Me estendo no ciclo como quem se entrega ao sono,
Fecho os olhos pesados,
Me deito atravessado na cama,
E me sinto triste de gozá-la tanto,
Num dia de calor qualquer.
Comer um fruto probido é mastigar a repetição,
Cheirar seu perfume é lembrar que tudo acaba,
Pensar num pomar é ver o apodrecer e renascer.
Penso que já pensei mil vezes,
Esse mesmo pensamento.
A mata é memória emaranhada,
Onde arrasto lembranças como quem abre picada.
Sou um ceifador de memórias,
Sob a volta eterna do Rei Serpente,
Que me enrola até no silêncio.
