sábado, 4 de outubro de 2025

Ceifador de Memórias

“Perguntou o Senhor Deus à mulher: Que é isto que fizeste?

Respondeu a mulher: A Serpente enganou-me, e eu comi.”


E ao morder a maça sinto a pele fria do Rei Serpente,

O ciclo me fecha a boca,

E é nesse abismo que encontro o amor ao destino.

A verdade não tem consolo: é dor e retorno.

Me estendo no ciclo como quem se entrega ao sono,

Fecho os olhos pesados,

Me deito atravessado na cama,

E me sinto triste de gozá-la tanto,

Num dia de calor qualquer.


Comer um fruto probido é mastigar a repetição,

Cheirar seu perfume é lembrar que tudo acaba,

Pensar num pomar é ver o apodrecer e renascer.

Penso que já pensei mil vezes,

Esse mesmo pensamento.


A mata é memória emaranhada,

Onde arrasto lembranças como quem abre picada.

Sou um ceifador de memórias,

Sob a volta eterna do Rei Serpente,

Que me enrola até no silêncio.



The Gray Forest

Max Ernst