Não suporto mais meu cheiro
Minha poeira, meu mundinho-asma
Minha tarde, meu quarto
Meu coração sitiado
Queimada da cana
Brasas do horizonte na manhã
Não suporto minha silhueta de lixo
Na praça do mercado, na biblioteca
Não suporto meu banho no chuveiro
O sabonetencanto
Que disfarça o cheiro da carne
Estou farto de mim mesmo
Eu quero a necessidade de outros eu’s
Há amores estrangeiros. São fluxos contínuos, como mochileiros e caronas. Passam por nós, mas não são nossos. Vêm necessariamente de outro e nos é sempre desconhecido. Uma novidade, outra língua, outra roupa, outra cultura. Nunca estaciona, mas está sempre em viagem. Sempre vai embora, para dar lugar a outro amor estrangeiro. Nos cabe então, a hospitalidade.
sábado, 30 de julho de 2011
O toque
Eu falo: Cabelos
E movo minha mão até o substrato, a palavra-pensamento
Ô toco, agarro, amarro – Carícia
No ar, no nada, na frente da minha cara
Eu escrevo: Ombros
E passo tristemente o dedo sob a palavra
Não mancha, não desbota, não se meche
Sem carinho, não agarro – destoco
E movo minha mão até o substrato, a palavra-pensamento
Ô toco, agarro, amarro – Carícia
No ar, no nada, na frente da minha cara
Eu escrevo: Ombros
E passo tristemente o dedo sob a palavra
Não mancha, não desbota, não se meche
Sem carinho, não agarro – destoco
sexta-feira, 29 de julho de 2011
Solidão
Se estou só porque quero ou não
Neste fragmento do agora
Ainda posso dizer: - Sou poeta, não importa!
Importa que vivo e digo: - A solidão
Solidão cor, solidão cheiro, solidão som
Tão leve é a rota que percorro
Que me basta ter esse peso sobre peso
De não ter – Amigo do nada, coisa em vão
Solidão sinto, solidão penso, solidão minto
E lento, invento e vento para o sonho, para o sul
E digo: Não estou só – Minto e rebento... Solidão!
Solidão livro, solidão música, solidão computador
Solidão outro, solidão tudo – com puta dor no coração
Neste fragmento do agora
Ainda posso dizer: - Sou poeta, não importa!
Importa que vivo e digo: - A solidão
Solidão cor, solidão cheiro, solidão som
Tão leve é a rota que percorro
Que me basta ter esse peso sobre peso
De não ter – Amigo do nada, coisa em vão
Solidão sinto, solidão penso, solidão minto
E lento, invento e vento para o sonho, para o sul
E digo: Não estou só – Minto e rebento... Solidão!
Solidão livro, solidão música, solidão computador
Solidão outro, solidão tudo – com puta dor no coração
Acompanhado de mim
Ainda que eu fosse só no mundo
Teria de me preocupar com alguém
Alguém esse que faz falta
Como faz falta ninguém
Ainda que eu fosse só no mundo
Quantas lembranças teria
De quem não conheci
Quantas pessoas veria
Em lugar nenhum, por ai
Ainda que eu fosse só no mundo
Seria alguém para mim
Teria de me preocupar com alguém
Alguém esse que faz falta
Como faz falta ninguém
Ainda que eu fosse só no mundo
Quantas lembranças teria
De quem não conheci
Quantas pessoas veria
Em lugar nenhum, por ai
Ainda que eu fosse só no mundo
Seria alguém para mim
terça-feira, 26 de julho de 2011
Clandestino
Lá estou
Em qualquer espaço apertado
Entre o convés mais baixo
E o fundo da embarcação
Como uma mercadoria
Em um navio mercante
Em um espaço estanque
Só uma carga guardada
Entre o solo empoeirado
E o primeiro pavimento do teu amor
Em qualquer espaço apertado
Entre o convés mais baixo
E o fundo da embarcação
Como uma mercadoria
Em um navio mercante
Em um espaço estanque
Só uma carga guardada
Entre o solo empoeirado
E o primeiro pavimento do teu amor
Dor de barriga
Sensação de sofrimento mortificado
Decorrência de uma lesão contínua
Percebida por minhas formações nervosas especializadas
Magoado. Pesaroso.
Sem estima (de quem estimo)
Há algo errado com meus intestinos
Ou meu coração foi para o bucho
Decorrência de uma lesão contínua
Percebida por minhas formações nervosas especializadas
Magoado. Pesaroso.
Sem estima (de quem estimo)
Há algo errado com meus intestinos
Ou meu coração foi para o bucho
domingo, 24 de julho de 2011
Melodia
Em instantes descontínuos
Me pego em encanto falante
Falo de mim mesmo
Falo de minha amante
Sou feliz por estar vivo
E andar a vida adiante
Adiando a minha pressa
Pra ficar com minha amante
Minha amante é a menina
Que descontinua meus instantes
Quando a conheci
Me apressei a ir adiante
Me pegou de surpresa
Eu já era teu amante...
Me pego em encanto falante
Falo de mim mesmo
Falo de minha amante
Sou feliz por estar vivo
E andar a vida adiante
Adiando a minha pressa
Pra ficar com minha amante
Minha amante é a menina
Que descontinua meus instantes
Quando a conheci
Me apressei a ir adiante
Me pegou de surpresa
Eu já era teu amante...
Antes, agora e além
É essa tua simples palavra
Que lava o meu pensamento
Essa expressão cativa
Que me contenta
É o teu colo e o eu mimo
Que me eleva
Que me constrói, me destrói.
É essa menina-fada
Meio afrancesada
Que faz com que
Antes, agora e além
Eu não queira
Ter mais ninguém
Que lava o meu pensamento
Essa expressão cativa
Que me contenta
É o teu colo e o eu mimo
Que me eleva
Que me constrói, me destrói.
É essa menina-fada
Meio afrancesada
Que faz com que
Antes, agora e além
Eu não queira
Ter mais ninguém
segunda-feira, 18 de julho de 2011
Cortes
Dividiu descuidadamente
Separou um pedaço do todo
Com um instrumento afiado
Fez uma incisão
E derrubou sangue
Talhou o tronco
E suprimiu o nada
Encurtou, singrou
Atravessou a cabeça
E anulou meu pensamento
Fatiou minha solidão
Com um amor
Cortante
Separou um pedaço do todo
Com um instrumento afiado
Fez uma incisão
E derrubou sangue
Talhou o tronco
E suprimiu o nada
Encurtou, singrou
Atravessou a cabeça
E anulou meu pensamento
Fatiou minha solidão
Com um amor
Cortante
Sepulcro
Quieto
Amor eterno
Soterrado vivo
Encerro-te para sempre
Sepulto-te pelo teu tempo
Encovado em curto espaço
Oculto sobre a terra
Compareço ao seu tumulo com constância
Celebro o teu “fim”, com uma garrafa de vinho
Pois termina ali
Este amor assunto, esta questão desagradável
Essa ruína
Cravo-te até o fim
Para provar tua morte
Essa quietude sem alma
Para desacreditá-lo
Mas você me puxa a perna
Eterno amor!
Eleva-me a narina a podridão
Do seu cadáver!
Que se move e se debate!
O amor que não morre
Um amor zumbi!
Amor eterno
Soterrado vivo
Encerro-te para sempre
Sepulto-te pelo teu tempo
Encovado em curto espaço
Oculto sobre a terra
Compareço ao seu tumulo com constância
Celebro o teu “fim”, com uma garrafa de vinho
Pois termina ali
Este amor assunto, esta questão desagradável
Essa ruína
Cravo-te até o fim
Para provar tua morte
Essa quietude sem alma
Para desacreditá-lo
Mas você me puxa a perna
Eterno amor!
Eleva-me a narina a podridão
Do seu cadáver!
Que se move e se debate!
O amor que não morre
Um amor zumbi!
quinta-feira, 14 de julho de 2011
Consistência
Você é uma designação genérica
De um elemento não textual
Um desenho leve
Um quadro turvo
É um conjunto de figurações
Formada por pontos próximos
Linhas aleatórias
E superfície macia
É de poucas palavras
Uma forma de locução
Que foge da norma rigorosa
Com um fim expressivo
É cada um dos sinais gráficos
Que indica a duração
De uma pausa
...
Eu
Sou vulto
Sem forma exterior
A duração de uma nota
De um elemento não textual
Um desenho leve
Um quadro turvo
É um conjunto de figurações
Formada por pontos próximos
Linhas aleatórias
E superfície macia
É de poucas palavras
Uma forma de locução
Que foge da norma rigorosa
Com um fim expressivo
É cada um dos sinais gráficos
Que indica a duração
De uma pausa
...
Eu
Sou vulto
Sem forma exterior
A duração de uma nota
quarta-feira, 13 de julho de 2011
Habitou
Ela ocupou-me
Como se eu fosse
Residência
Ela reside
E tornou-me habitado
Que eu era um vazio
Agora sou seu habitát
Habita-me
Alma, ela é mais alguém
Que mora em alguém, eu
Somos lugares habitáveis
Não habitáculos
E sim casas grandes
Unificadas
Pelo hábito
Como se eu fosse
Residência
Ela reside
E tornou-me habitado
Que eu era um vazio
Agora sou seu habitát
Habita-me
Alma, ela é mais alguém
Que mora em alguém, eu
Somos lugares habitáveis
Não habitáculos
E sim casas grandes
Unificadas
Pelo hábito
terça-feira, 12 de julho de 2011
Conhece-me
Essa é minha vida
O tempo passando em incompativeis
Liturgias pessoais e recatadas
De olhos ardentes
Enfrentando o sol apenas á observar
O caos dos pássaros
Regurgitando o almoço mal digerido
Desde a semana passada
Simplesmente não desce
Dualizando o andar apressado
Com a calmaria do falar
E a paciência para entender
Falta-me cor onde há medo
E onde não há medo
Ainda falta tinta
Sempre construtivo
Crítico quando posso
Mas destruir é o meu hobby
Alego insanidade
A desculpa do gozo não me abandona
Sou o decalque da maldade cristã
O tempo passando em incompativeis
Liturgias pessoais e recatadas
De olhos ardentes
Enfrentando o sol apenas á observar
O caos dos pássaros
Regurgitando o almoço mal digerido
Desde a semana passada
Simplesmente não desce
Dualizando o andar apressado
Com a calmaria do falar
E a paciência para entender
Falta-me cor onde há medo
E onde não há medo
Ainda falta tinta
Sempre construtivo
Crítico quando posso
Mas destruir é o meu hobby
Alego insanidade
A desculpa do gozo não me abandona
Sou o decalque da maldade cristã
segunda-feira, 11 de julho de 2011
Conhece-te
Me fale de você
De sua vida
Das suas glórias e desgraças
Dos seus sonhos, seus projetos
Porquês, motivos, medos e mordaças
Seus rancores, ardores, odores
Quais flores você mais gosta?
Me fale de sua cor predileta
Sua panturrilha e sua bicicleta
Seus nojos, lugares secretos
Seus amores e paixões
Você gosta de ovo frito?
Me fale de seus mitos, religião
Sua crença, sua roupa
Sua banda, Legião
Seus gritos, suas inquietações
Seu cabelo quando acorda
Seus tiques e paródias
Confusões e conclusões
Seu cobertor, sobre o que leu
Releu e pensou
Viveu e chorou
Você gosta dos meus olhos?
Você gosta dos seus!
Me fale sobre sexo, cama, calor
Beijos, sopros no ouvido
Gozar, gozar e gozar...
Eu quero ouvir, me fale
E depois, necessariamente...
Reticências.
De sua vida
Das suas glórias e desgraças
Dos seus sonhos, seus projetos
Porquês, motivos, medos e mordaças
Seus rancores, ardores, odores
Quais flores você mais gosta?
Me fale de sua cor predileta
Sua panturrilha e sua bicicleta
Seus nojos, lugares secretos
Seus amores e paixões
Você gosta de ovo frito?
Me fale de seus mitos, religião
Sua crença, sua roupa
Sua banda, Legião
Seus gritos, suas inquietações
Seu cabelo quando acorda
Seus tiques e paródias
Confusões e conclusões
Seu cobertor, sobre o que leu
Releu e pensou
Viveu e chorou
Você gosta dos meus olhos?
Você gosta dos seus!
Me fale sobre sexo, cama, calor
Beijos, sopros no ouvido
Gozar, gozar e gozar...
Eu quero ouvir, me fale
E depois, necessariamente...
Reticências.
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