sábado, 30 de julho de 2011

O necessário

Não suporto mais meu cheiro
Minha poeira, meu mundinho-asma
Minha tarde, meu quarto
Meu coração sitiado
Queimada da cana
Brasas do horizonte na manhã
Não suporto minha silhueta de lixo
Na praça do mercado, na biblioteca
Não suporto meu banho no chuveiro
O sabonetencanto
Que disfarça o cheiro da carne
Estou farto de mim mesmo

Eu quero a necessidade de outros eu’s

O toque

Eu falo: Cabelos
E movo minha mão até o substrato, a palavra-pensamento
Ô toco, agarro, amarro – Carícia
No ar, no nada, na frente da minha cara
Eu escrevo: Ombros
E passo tristemente o dedo sob a palavra
Não mancha, não desbota, não se meche

Sem carinho, não agarro – destoco

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Solidão

Se estou só porque quero ou não
Neste fragmento do agora
Ainda posso dizer: - Sou poeta, não importa!
Importa que vivo e digo: - A solidão

Solidão cor, solidão cheiro, solidão som
Tão leve é a rota que percorro
Que me basta ter esse peso sobre peso
De não ter – Amigo do nada, coisa em vão

Solidão sinto, solidão penso, solidão minto
E lento, invento e vento para o sonho, para o sul
E digo: Não estou só – Minto e rebento... Solidão!

Solidão livro, solidão música, solidão computador
Solidão outro, solidão tudo – com puta dor no coração

Acompanhado de mim

Ainda que eu fosse só no mundo
Teria de me preocupar com alguém
Alguém esse que faz falta
Como faz falta ninguém

Ainda que eu fosse só no mundo
Quantas lembranças teria
De quem não conheci
Quantas pessoas veria
Em lugar nenhum, por ai

Ainda que eu fosse só no mundo
Seria alguém para mim

terça-feira, 26 de julho de 2011

Clandestino

Lá estou
Em qualquer espaço apertado
Entre o convés mais baixo
E o fundo da embarcação
Como uma mercadoria
Em um navio mercante
Em um espaço estanque
Só uma carga guardada
Entre o solo empoeirado
E o primeiro pavimento do teu amor

Dor de barriga

Sensação de sofrimento mortificado
Decorrência de uma lesão contínua
Percebida por minhas formações nervosas especializadas
Magoado. Pesaroso.
Sem estima (de quem estimo)
Há algo errado com meus intestinos
Ou meu coração foi para o bucho

domingo, 24 de julho de 2011

Melodia

Em instantes descontínuos
Me pego em encanto falante
Falo de mim mesmo
Falo de minha amante

Sou feliz por estar vivo
E andar a vida adiante
Adiando a minha pressa
Pra ficar com minha amante

Minha amante é a menina
Que descontinua meus instantes

Quando a conheci
Me apressei a ir adiante
Me pegou de surpresa

Eu já era teu amante...

Antes, agora e além

É essa tua simples palavra
Que lava o meu pensamento
Essa expressão cativa
Que me contenta
É o teu colo e o eu mimo
Que me eleva
Que me constrói, me destrói.
É essa menina-fada
Meio afrancesada
Que faz com que
Antes, agora e além
Eu não queira
Ter mais ninguém

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Cortes

Dividiu descuidadamente
Separou um pedaço do todo
Com um instrumento afiado
Fez uma incisão
E derrubou sangue
Talhou o tronco
E suprimiu o nada
Encurtou, singrou
Atravessou a cabeça
E anulou meu pensamento
Fatiou minha solidão
Com um amor
Cortante

Sepulcro

Quieto
Amor eterno
Soterrado vivo
Encerro-te para sempre
Sepulto-te pelo teu tempo
Encovado em curto espaço
Oculto sobre a terra

Compareço ao seu tumulo com constância
Celebro o teu “fim”, com uma garrafa de vinho
Pois termina ali
Este amor assunto, esta questão desagradável
Essa ruína

Cravo-te até o fim
Para provar tua morte
Essa quietude sem alma
Para desacreditá-lo

Mas você me puxa a perna
Eterno amor!
Eleva-me a narina a podridão
Do seu cadáver!
Que se move e se debate!
O amor que não morre
Um amor zumbi!

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Consistência

Você é uma designação genérica
De um elemento não textual
Um desenho leve
Um quadro turvo

É um conjunto de figurações
Formada por pontos próximos
Linhas aleatórias
E superfície macia

É de poucas palavras
Uma forma de locução
Que foge da norma rigorosa
Com um fim expressivo

É cada um dos sinais gráficos
Que indica a duração
De uma pausa

...

Eu
Sou vulto
Sem forma exterior
A duração de uma nota

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Habitou

Ela ocupou-me
Como se eu fosse
Residência
Ela reside
E tornou-me habitado
Que eu era um vazio
Agora sou seu habitát

Habita-me

Alma, ela é mais alguém
Que mora em alguém, eu

Somos lugares habitáveis
Não habitáculos
E sim casas grandes
Unificadas
Pelo hábito

terça-feira, 12 de julho de 2011

Conhece-me

Essa é minha vida
O tempo passando em incompativeis
Liturgias pessoais e recatadas

De olhos ardentes
Enfrentando o sol apenas á observar
O caos dos pássaros

Regurgitando o almoço mal digerido
Desde a semana passada
Simplesmente não desce

Dualizando o andar apressado
Com a calmaria do falar
E a paciência para entender

Falta-me cor onde há medo
E onde não há medo
Ainda falta tinta

Sempre construtivo
Crítico quando posso
Mas destruir é o meu hobby
Alego insanidade

A desculpa do gozo não me abandona
Sou o decalque da maldade cristã

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Conhece-te

Me fale de você
De sua vida
Das suas glórias e desgraças
Dos seus sonhos, seus projetos
Porquês, motivos, medos e mordaças
Seus rancores, ardores, odores
Quais flores você mais gosta?
Me fale de sua cor predileta
Sua panturrilha e sua bicicleta
Seus nojos, lugares secretos
Seus amores e paixões
Você gosta de ovo frito?
Me fale de seus mitos, religião
Sua crença, sua roupa
Sua banda, Legião
Seus gritos, suas inquietações
Seu cabelo quando acorda
Seus tiques e paródias
Confusões e conclusões
Seu cobertor, sobre o que leu
Releu e pensou
Viveu e chorou
Você gosta dos meus olhos?
Você gosta dos seus!
Me fale sobre sexo, cama, calor
Beijos, sopros no ouvido
Gozar, gozar e gozar...

Eu quero ouvir, me fale
E depois, necessariamente...
Reticências.