sexta-feira, 24 de outubro de 2025

A Máscara da Dureza

falei de mim
com a calma de quem já sangrou demais.

ele respondeu com pedras,
pedradas no que me há de mais precioso,
com imagens fétidas

que habitam seu estomago gore
como se o amor fosse uma ferida suja
e o desejo, um crime ediondo.

uma máscara de pureza
que não pode chegar perto do fogo;
senão derrete
e revela sua hipocrisia —
não só mentira,
mas desejo de moral
para benefício próprio.

disse que meu caos era pecado,
que meu desejo era sintoma,
que meu pensamento era ruína.
tentou me ensinar o que é certo,
como se meu caos fosse doença
e o dele, doutrina.

não quis salvação;
quis apenas existir inteiro,
mesmo rachado,
mesmo sujo de eternidade.

há quem confunda luz com cegueira,
há quem ore de olhos fechados
e chame isso de fé.
vi que a cegueira mora
nos que gritam:
“pureza”,
“felicidade”,
“saúde”.

não doeu pelo que ele disse,
mas pelo que não viu:
meu esforço por ser honesto,
meu pedido de cuidado,
meu cansaço de apanhar por existir.

ontem chorei;
depois fiquei quieto,
mas inteiro.
choro feio, mas sincero,
enquanto gente fala bonito
pra esconder o vazio.

no meu choro, há eu:
com falhas,
vícios,
buracos.
mas são meus.

acordei leve, contente
porque entendi:
o abismo que me chama
é mais livre
que o céu
onde ele se ajoelha.






terça-feira, 21 de outubro de 2025

Sobrou só o Sileno

 já era difícil.

ficou pior.

tem dias que o mundo pesa
como um riso enforcado,
e o tempo —
esse velho bêbado —
derrama os segundos no chão.

não há consolo, só porrada
tem dias, que só sobra
a sabedoria de Sileno,
sussurrando no ouvido:

“melhor nunca ter nascido,
mas já que nasceu,
morre o quanto antes.”



 

sexta-feira, 10 de outubro de 2025

Árvores Colossais

 O mundo ainda vive em mim,

como um malmequer que nasce entre pedras e cinzas.


Renasço a cada instante,

mesmo com lembranças que cortam

e a saudade de lhe ter perdido.

Só serei feliz quando estiver com você de novo.

Isso pode nunca acontecer.

E talvez por isso a felicidade seja inatingível pra mim.


Amar é aceitar o que existe,

mesmo quando dói ou dá medo.


O mundo está aí, inteiro,

mesmo que eu carregue dor e saudade.

Não penso demais, apenas sinto,

como vento na pele.


Cada instante é morrer.

na ausência, na surpresa, no que resiste.

Meu coração se partiu, se abriu, se entregou,

a dor me fez pequeno e gigante ao mesmo tempo.


Ando pelas ruas da memória,

olhando pra todo lado, às vezes pra trás…

Casas cheias de risos e sombras,

brincadeiras que ficaram, lágrimas que queimam.


No meio de tudo,

sob a sombra de Mehen,

sou sim, um ceifador de memórias

mas há memórias que nunca ceifarei,

Tão densas e pesadas

como gigantescas árvores

antigas, belas

por estas me deixo esmagar de bom grado

E para estar junto dessas, que não quero abandonar

Ceifo as memórias menores, ervas daninhas

Pois não há corpo que aguente carregar todas

Arrasto lembranças colossais como quem abre caminho,

sinto a dor inevitável

pela perda de quem amei.


Morro a cada instante, sim

Mas ainda renasço,

porque o ciclo não para,

e cada átimo me dá um pedaço de eternidade.


Gustav Klimt,Roseiras sob as árvores



sábado, 4 de outubro de 2025

Ceifador de Memórias

“Perguntou o Senhor Deus à mulher: Que é isto que fizeste?

Respondeu a mulher: A Serpente enganou-me, e eu comi.”


E ao morder a maça sinto a pele fria do Rei Serpente,

O ciclo me fecha a boca,

E é nesse abismo que encontro o amor ao destino.

A verdade não tem consolo: é dor e retorno.

Me estendo no ciclo como quem se entrega ao sono,

Fecho os olhos pesados,

Me deito atravessado na cama,

E me sinto triste de gozá-la tanto,

Num dia de calor qualquer.


Comer um fruto probido é mastigar a repetição,

Cheirar seu perfume é lembrar que tudo acaba,

Pensar num pomar é ver o apodrecer e renascer.

Penso que já pensei mil vezes,

Esse mesmo pensamento.


A mata é memória emaranhada,

Onde arrasto lembranças como quem abre picada.

Sou um ceifador de memórias,

Sob a volta eterna do Rei Serpente,

Que me enrola até no silêncio.



The Gray Forest

Max Ernst