Amor Estrangeiro
Há amores estrangeiros. São fluxos contínuos, como mochileiros e caronas. Passam por nós, mas não são nossos. Vêm necessariamente de outro e nos é sempre desconhecido. Uma novidade, outra língua, outra roupa, outra cultura. Nunca estaciona, mas está sempre em viagem. Sempre vai embora, para dar lugar a outro amor estrangeiro. Nos cabe então, a hospitalidade.
domingo, 2 de novembro de 2025
sábado, 25 de outubro de 2025
Entre Linhas
Te quero em silêncio,
escondido entre sorrisos alheios,
esperando que ninguém perceba
o que só meu peito sabe.
sexta-feira, 24 de outubro de 2025
A Máscara da Dureza
falei
de mim
com a calma de quem já sangrou demais.
ele respondeu com
pedras,
pedradas no que me há de mais precioso,
com
imagens fétidas
que habitam seu estomago
gore
como se o amor fosse uma ferida suja
e o desejo, um
crime ediondo.
uma máscara de pureza
que
não pode chegar perto do fogo;
senão derrete
e revela sua
hipocrisia —
não só mentira,
mas desejo de moral
para
benefício próprio.
disse que meu caos era
pecado,
que meu desejo era sintoma,
que meu pensamento era
ruína.
tentou me ensinar o que é certo,
como se meu caos
fosse doença
e o dele, doutrina.
não quis salvação;
quis
apenas existir inteiro,
mesmo rachado,
mesmo sujo de
eternidade.
há quem confunda luz com
cegueira,
há quem ore de olhos fechados
e chame isso de
fé.
vi que a cegueira mora
nos que
gritam:
“pureza”,
“felicidade”,
“saúde”.
não doeu pelo que ele
disse,
mas pelo que não viu:
meu esforço por ser
honesto,
meu pedido de cuidado,
meu cansaço de apanhar por
existir.
ontem chorei;
depois
fiquei quieto,
mas inteiro.
choro feio, mas
sincero,
enquanto gente fala bonito
pra esconder o vazio.
no meu choro, há eu:
com
falhas,
vícios,
buracos.
mas são meus.
acordei leve, contente
porque
entendi:
o abismo que me chama
é mais livre
que o
céu
onde ele se ajoelha.
terça-feira, 21 de outubro de 2025
Sobrou só o Sileno
já era difícil.
ficou pior.
tem dias que o mundo pesa
como um riso enforcado,
e o tempo —
esse velho bêbado —
derrama os segundos no chão.
não há consolo, só porrada
tem dias, que só sobra
a sabedoria de Sileno,
sussurrando no ouvido:
“melhor nunca ter nascido,
mas já que nasceu,
morre o quanto antes.”
sexta-feira, 10 de outubro de 2025
Árvores Colossais
O mundo ainda vive em mim,
como um malmequer que nasce entre pedras e cinzas.
Renasço a cada instante,
mesmo com lembranças que cortam
e a saudade de lhe ter perdido.
Só serei feliz quando estiver com você de novo.
Isso pode nunca acontecer.
E talvez por isso a felicidade seja inatingível pra mim.
Amar é aceitar o que existe,
mesmo quando dói ou dá medo.
O mundo está aí, inteiro,
mesmo que eu carregue dor e saudade.
Não penso demais, apenas sinto,
como vento na pele.
Cada instante é morrer.
na ausência, na surpresa, no que resiste.
Meu coração se partiu, se abriu, se entregou,
a dor me fez pequeno e gigante ao mesmo tempo.
Ando pelas ruas da memória,
olhando pra todo lado, às vezes pra trás…
Casas cheias de risos e sombras,
brincadeiras que ficaram, lágrimas que queimam.
No meio de tudo,
sob a sombra de Mehen,
sou sim, um ceifador de memórias
mas há memórias que nunca ceifarei,
Tão densas e pesadas
como gigantescas árvores
antigas, belas
por estas me deixo esmagar de bom grado
E para estar junto dessas, que não quero abandonar
Ceifo as memórias menores, ervas daninhas
Pois não há corpo que aguente carregar todas
Arrasto lembranças colossais como quem abre caminho,
sinto a dor inevitável
pela perda de quem amei.
Morro a cada instante, sim
Mas ainda renasço,
porque o ciclo não para,
e cada átimo me dá um pedaço de eternidade.
Gustav Klimt,Roseiras sob as árvores
sábado, 4 de outubro de 2025
Ceifador de Memórias
“Perguntou o Senhor Deus à mulher: Que é isto que fizeste?
Respondeu a mulher: A Serpente enganou-me, e eu comi.”
E ao morder a maça sinto a pele fria do Rei Serpente,
O ciclo me fecha a boca,
E é nesse abismo que encontro o amor ao destino.
A verdade não tem consolo: é dor e retorno.
Me estendo no ciclo como quem se entrega ao sono,
Fecho os olhos pesados,
Me deito atravessado na cama,
E me sinto triste de gozá-la tanto,
Num dia de calor qualquer.
Comer um fruto probido é mastigar a repetição,
Cheirar seu perfume é lembrar que tudo acaba,
Pensar num pomar é ver o apodrecer e renascer.
Penso que já pensei mil vezes,
Esse mesmo pensamento.
A mata é memória emaranhada,
Onde arrasto lembranças como quem abre picada.
Sou um ceifador de memórias,
Sob a volta eterna do Rei Serpente,
Que me enrola até no silêncio.

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