falei
de mim
com a calma de quem já sangrou demais.
ele respondeu com
pedras,
pedradas no que me há de mais precioso,
com
imagens fétidas
que habitam seu estomago
gore
como se o amor fosse uma ferida suja
e o desejo, um
crime ediondo.
uma máscara de pureza
que
não pode chegar perto do fogo;
senão derrete
e revela sua
hipocrisia —
não só mentira,
mas desejo de moral
para
benefício próprio.
disse que meu caos era
pecado,
que meu desejo era sintoma,
que meu pensamento era
ruína.
tentou me ensinar o que é certo,
como se meu caos
fosse doença
e o dele, doutrina.
não quis salvação;
quis
apenas existir inteiro,
mesmo rachado,
mesmo sujo de
eternidade.
há quem confunda luz com
cegueira,
há quem ore de olhos fechados
e chame isso de
fé.
vi que a cegueira mora
nos que
gritam:
“pureza”,
“felicidade”,
“saúde”.
não doeu pelo que ele
disse,
mas pelo que não viu:
meu esforço por ser
honesto,
meu pedido de cuidado,
meu cansaço de apanhar por
existir.
ontem chorei;
depois
fiquei quieto,
mas inteiro.
choro feio, mas
sincero,
enquanto gente fala bonito
pra esconder o vazio.
no meu choro, há eu:
com
falhas,
vícios,
buracos.
mas são meus.
acordei leve, contente
porque
entendi:
o abismo que me chama
é mais livre
que o
céu
onde ele se ajoelha.
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