sexta-feira, 24 de outubro de 2025

A Máscara da Dureza

falei de mim
com a calma de quem já sangrou demais.

ele respondeu com pedras,
pedradas no que me há de mais precioso,
com imagens fétidas

que habitam seu estomago gore
como se o amor fosse uma ferida suja
e o desejo, um crime ediondo.

uma máscara de pureza
que não pode chegar perto do fogo;
senão derrete
e revela sua hipocrisia —
não só mentira,
mas desejo de moral
para benefício próprio.

disse que meu caos era pecado,
que meu desejo era sintoma,
que meu pensamento era ruína.
tentou me ensinar o que é certo,
como se meu caos fosse doença
e o dele, doutrina.

não quis salvação;
quis apenas existir inteiro,
mesmo rachado,
mesmo sujo de eternidade.

há quem confunda luz com cegueira,
há quem ore de olhos fechados
e chame isso de fé.
vi que a cegueira mora
nos que gritam:
“pureza”,
“felicidade”,
“saúde”.

não doeu pelo que ele disse,
mas pelo que não viu:
meu esforço por ser honesto,
meu pedido de cuidado,
meu cansaço de apanhar por existir.

ontem chorei;
depois fiquei quieto,
mas inteiro.
choro feio, mas sincero,
enquanto gente fala bonito
pra esconder o vazio.

no meu choro, há eu:
com falhas,
vícios,
buracos.
mas são meus.

acordei leve, contente
porque entendi:
o abismo que me chama
é mais livre
que o céu
onde ele se ajoelha.






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